O Banco Mundial colocou Argentina e Brasil em polos opostos em seu novo relatório sobre a América Latina, divulgado nesta quarta-feira (8). Enquanto a economia argentina “se destaca” pelo avanço das reformas de Javier Milei, o Brasil “sofre” com juros reais elevados, espaço fiscal limitado e incerteza comercial.
Para 2026, o organismo projeta crescimento de 3,6% no PIB argentino — após expansão de 4,4% em 2025. O Brasil deve crescer 2,2% neste ano, ante 2,8% no período anterior — desaceleração que o Banco Mundial atribui a condições financeiras internas restritivas.
O que o Banco Mundial vê na Argentina
O destaque à Argentina tem nome e sobrenome: as reformas econômicas liberais conduzidas pelo presidente Javier Milei. O relatório cita a reforma tributária, o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI) — voltado a projetos de energia com redução de tributos e estímulo a exportações —, a reforma do mercado de trabalho e os “esforços contínuos para melhorar o ambiente de negócios”.
O organismo avalia que a maior clareza sobre a âncora fiscal e a agenda de reformas ajudou a “ancorar as expectativas, melhorar as condições financeiras e promover a recuperação do consumo e do investimento privados” no país. O crescimento de 4,4% em 2025 — melhor resultado sob Milei — ainda não se traduziu em melhora concreta no dia a dia dos argentinos, mas o Banco Mundial reconhece a trajetória positiva.
Os riscos, porém, não foram ignorados. O relatório alerta para as “grandes necessidades de financiamento externo em um contexto de reservas internacionais líquidas negativas e ainda limitado acesso aos mercados internacionais de dívida” como ameaças persistentes ao modelo argentino.
O gargalo do Brasil
No Brasil, a queda dos juros no início do ano e os preços favoráveis de commodities “permanecem insuficientes para superar o entrave causado por tensões comerciais persistentes, incertezas em matéria de políticas, espaço fiscal limitado e demanda privada fraca”, segundo o documento.
O Banco Mundial aponta as taxas reais elevadas como o principal obstáculo: elas “continuam a restringir o crédito, o investimento e os gastos discricionários” — efeito direto da política monetária do Banco Central para conter a inflação. O PIB brasileiro cresceu apenas 2,3% em 2025, o pior desempenho desde a pandemia, e as perspectivas para 2026 são ainda mais modestas, segundo o organismo.
O governo Lula tenta reagir ao cenário de crédito caro e inadimplência crescente com um programa de refinanciamento de dívidas. A proposta prevê unificar débitos de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal em uma única operação, com descontos nos juros que variam de 30% a 80% — podendo chegar a 90% em alguns casos. O uso de recursos do FGTS para quitação de dívidas também está em análise, segundo confirmou o próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan.
O movimento ocorre em pleno ano eleitoral, o que amplifica a pressão política por medidas de alívio financeiro para as famílias. O Banco Mundial reconhece que a inadimplência cresce gradualmente no Brasil, mas pondera que os níveis “permanecem moderados em termos históricos”.
Para a região como um todo, o organismo avalia que a falta de melhora em relação a 2025 “oculta perspectivas mais fracas para muitos países e implica ganhos de renda per capita praticamente estagnados”. Mesmo com o IBC-Br registrando a maior expansão mensal em um ano em janeiro, o Banco Central manteve os juros em patamar restritivo — exatamente o gargalo que o Banco Mundial identifica como o principal freio ao crédito e ao investimento no Brasil.
